ANDES-SN 45 anos: A reorganização do Setor das Iees, Imes e Ides e o legado da greve de 2015 na Bahia

Publicado em 19 de Maio de 2026 às 15h20. Atualizado em 19 de Maio de 2026 às 16h05

Em 2026, o ANDES-SN celebra 45 anos de luta. Esta matéria integra um projeto especial de reportagens que resgatam a trajetória do sindicato e sua resistência ininterrupta em defesa da educação pública e da categoria docente, por meio de eventos que marcaram a história do Sindicato Nacional e depoimentos de quem os presenciou. Fundada em 19 de fevereiro de 1981, a entidade consolidou-se como um instrumento de luta que unifica gerações de docentes em todo o país.

O movimento docente nas Instituições Estaduais, Municipais e Distritais de Ensino Superior (Iees/Imes/Ides) é marcado pela defesa intransigente da universidade pública, gratuita e socialmente referenciada. O Setor das Iees, Imes e Ides vem consolidando-se como um espaço fundamental para unificar as lutas da categoria, que enfrenta processos de precarização semelhantes em todo o país.

Até 2023, o Setor era composto apenas por representantes de universidades estaduais e municipais. Com a criação da Seção Sindical de Docentes da Universidade do Distrito Federal (Sindundf SSind.), em 2024, o 42º Congresso aprovou a mudança do nome do setor das Iees/Imes para Setor das Iees/Imes/Ides — Instituições Estaduais, Municipais e Distrital de Ensino Superior.

Nacionalizar para fortalecer
Personagem dessa trajetória, a professora Zózina Maria Rocha de Almeida, da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), recorda que a organização atual do Setor das Iees, Imes e Ides é fruto de uma transição política iniciada nos anos 2000, quando o movimento deixou de ser apenas um espaço de reuniões para se tornar um instrumento de planejamento estratégico. Segundo a docente, sob a influência inicial do professor Antônio Bosi, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), que na época era diretor do ANDES-SN, o Setor passou a focar em pautas nacionais e estudos sobre financiamento.

Zózina participou, pela primeira vez, de uma direção do Sindicato Nacional em 2004 e assumiu a coordenação do Setor das Iees e Imes. Uma das ações desenvolvidas à época foi promover encontros nacionais para que as professoras e os professores pudessem levar suas experiências, identificar pautas comuns e nacionalizar os enfrentamentos para fortalecer a luta da categoria.

A trajetória da professora na Uneb começou em 1999, vinda de uma longa militância no ensino médio. Já no início dos anos 2000, Zózina participou da greve pelo Estatuto do Magistério, mesmo estando em estágio probatório, o que era motivo de medo para muitas pessoas. Ela relata que, naquele período, a Seção Sindical do ANDES-SN na Uneb (Aduneb SSind.) vinha de dez anos sem atuação expressiva e que a mobilização unificada dos e das docentes foi fundamental para conquistar um estatuto que refletia os princípios do ANDES-SN.

Esse fortalecimento local foi o embrião para a reorganização do Fórum das Associações Docentes (ADs) na Bahia, que passou a unificar pautas das quatro universidades estaduais da Bahia (Uneb, Uesc, Uefs e Uesb), antes fragmentadas. A unidade na luta docente expressa pelo Fórum das ADs passou a dificultar que os governos baianos negociassem apenas internamente com cada instituição, dando uma conotação de força coletiva ao movimento.

A greve de 2015 na Bahia surge como o grande divisor de águas dessa organização, totalizando 86 dias de resistência de professores e professoras das quatro universidades estaduais baianas contra a intransigência do então governador, Rui Costa (PT). “Essa foi uma greve que teve uma pauta extensa, que envolvia desde orçamento, salários, a questão das promoções e progressões, várias coisas, a revogação da 7.176/97, que foi uma lei retrógrada que retirava a autonomia das universidades”, conta.

Zózina relembra com indignação que, além do corte de salários e do acampamento na Secretaria de Educação, o ex-governador enviou o coronel Humberto Sturaro Filho para negociar com a categoria, alguém que ela descreve como um repressor que tentou intimidar as professoras e os professores. Segundo a docente, o negociador chegou a apontar o dedo para a categoria e ameaçou usar a força contra as e os grevistas que estavam na secretaria, mas o resultado foi a politização de uma categoria que ficou ainda mais indignada.

“Rui Costa, que não gosta dos funcionários públicos, botou para negociar o coronel Sturaro, que foi fazer medo, encarar os professores para saírem da secretaria, pois, se não, ia mandar um caminhão para nos tirar. Hoje, por incrível que pareça, não podia se esperar outra coisa, ele é um bolsonarista”, recorda. “Mas foi uma greve importante, que fez com que, além de todas as questões do movimento, conseguíssemos a politização da categoria. A categoria ficou ainda mais indignada com as atitudes do governo, e esse movimento foi muito importante para a gente”, acrescenta.

A paralisação teve início em 13 de maio e foi suspensa com a assinatura de um acordo, em 06 de agosto daquele ano. A mobilização docente garantiu conquistas, como o destravamento de cerca de 900 promoções e progressões, que estavam represadas havia anos, além da histórica revogação da Lei 7.176/97, um entulho autoritário.

A professora da Uneb destaca que essa experiência de unidade na Bahia serviu de modelo para outros estados. Além do Fórum das ADs, existem instrumentos semelhantes que fortalecem as lutas em outros estados, como o Fórum das Seis em São Paulo, o Comando Sindical Docente no Paraná e o Fórum das Três no Ceará.

“Diante de estarmos no mesmo estado e a educação superior estadual ser fragmentada em várias instituições, não tem outro caminho a não ser a unificação. Essa possibilidade é o caminho correto de fortalecimento, não tem outra via. Diante das diversidades que temos no país, os fóruns constituem essa possibilidade de luta unificada e fortalecida, já que é muito difícil fazer uma luta única das estaduais no Brasil todo”, avalia.

Só a luta garante conquistas
No cenário nacional, o Setor enfrentou outras lutas memoráveis, como a greve de mais de quatro meses de docentes das estaduais do Paraná (2001-2002) e a resistência, também no Paraná, contra a Lei Geral das Universidades, em 2019. Em São Paulo, uma greve em 2000 garantiu ganhos salariais importantes para professores e professoras da USP, Unesp e Unicamp, enquanto no Ceará, a unificação permitiu a conquista de planos de carreira na Uece, UVA e Urca.

A luta do Setor conta ainda com docentes do Maranhão (Uema), do Pará (Uepa), de Roraima (Uerr), de Mato Grosso (Unemat), de Mato Grosso do Sul (Uems), da Paraíba (Uepb), do Rio Grande do Norte (Uern), do Piauí (Uespi), do Rio de Janeiro (Uerj e Uenf), do Amapá (Ueap), do Amazonas (UEA), de Minas Gerais (Uemg e Unimontes), de Santa Catarina (Udesc) e do Tocantins (Unirg). Em comum, as professoras e os professores lutam em defesa da autonomia universitária, contra a lista tríplice e a precarização do ensino, por mais orçamento e melhores condições de trabalho.

Recentemente, docentes da Universidade do Distrito Federal (UnDF) realizaram uma greve de 48 dias. A mobilização conseguiu garantir um termo de acordo com a nova reitora, Fernanda Marsaro dos Santos, e o governo do Distrito Federal, que prevê tanto a criação de grupos de trabalho quanto a de uma mesa permanente de negociação para tratar das pautas pendentes de docentes e de estudantes, como a instituição do Conselho Universitário e a realização de eleição para reitoria. Além da exoneração da reitora pró-tempore, o governo do DF garantiu ainda que estudantes que iniciaram seus cursos no Campus Lago Norte vão concluí-los no mesmo local. 

Zózina pondera que, além das pautas históricas, atualmente, o Setor das Iees, Imes e Ides lida com novos desafios, como as reformas Fiscal e da Previdência, e o aumento de contratos temporários. Ela ressalta ainda que a organização da categoria também precisa de mais docentes jovens que, pressionados pela produtividade e pela busca por complementação salarial, muitas vezes ainda não despertaram para a importância do Sindicato.

Para a professora da Uneb, a Semana de Lutas das Estaduais, realizada em maio, é um marco essencial para mobilizar novos e novas docentes. A jornada de lutas também ajuda a conscientizar sobre a importância da nacionalização de algumas pautas e mostrar que a sindicalização é a única proteção contra perseguições políticas e o avanço da extrema direita no ambiente universitário.

Refletindo sobre sua própria participação no movimento sindical, que inclui desgastes e sacrifícios na vida pessoal e profissional, Zózina afirma que faria tudo de novo. “A experiência no ANDES-SN abriu meus olhos, foi superimportante para mim. O Sindicato é um espaço de acúmulo e de unidade da classe trabalhadora. É um espaço democrático, que nós temos para extrapolar as nossas dúvidas, as nossas dificuldades, a nossa vivência e aprender com a experiência dos outros. E hoje, para mim, além disso, ele representa um reencontro de pessoas, de conhecidos do Brasil todo, de pessoas muito caras”, conclui

Fotos: Eline Luz / Imprensa ANDES-SN

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