Começou nesta sexta-feira (28), em São Paulo (SP), o Seminário Nacional de Questões Organizativas, Administrativas, Financeiras e Políticas do ANDES-SN. A atividade, organizada em conjunto com a Associação de Docentes da Universidade Federal de SP (Adunifesp Seção Sindical), acontece até domingo (30) e reúne 107 participantes, entre representantes das seções sindicais e da direção nacional do Sindicato.

O debate sobre a organização da classe trabalhadora e as estratégias para superar a crise do movimento sindical marcou primeira mesa do Seminário, com as presenças de Cláudio Mendonça, presidente do ANDES-SN, Gustavo Seferian, docente da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e ex-presidente do Sindicato Nacional e Letícia Nascimento, 2ª vice-presidenta da entidade. As três falas trouxeram reflexões sobre a crise do trabalho, a ofensiva neoliberal e a urgência de repensar as estratégias de luta e organização sindical.
Em sua fala, Cláudio Mendonça, presidente do ANDES-SN, apresentou elementos relacionados à crise do trabalho para compreender a organização da classe trabalhadora e a crise de sindicalização, a partir da perspectiva de Marx e Lukács. Ele enfatizou que o trabalhador não deve ser visto como um "mero sofredor", mas sim como alguém que tem a possibilidade de se organizar no sindicato para enfrentar as condições que o tornam "coisa" ou "ser unilateral".

O presidente do ANDES-SN analisou o "complexo ideológico neoliberal", que impacta diretamente o trabalho docente, e apresentou a "santa trindade do trabalho neoliberal": terceirização, precarização e intensificação.
“Pensar como a crise da organização sindical nos permite ao mesmo tempo de enfrentar todo esse complexo neoliberal que se coloca cada vez mais presente nas nossas universidades, institutos federais e cefets, e como podemos, na medida que enfrentamos essas narrativas, fortalecer a nossa organização, os nosso princípios e compreender quais táticas precisamos pensar para sairmos mais vitoriosos no enfrentamento diante da brutalidade do capitalismo nos dias atuais”, concluiu Cláudio.
Gustavo Seferian iniciou sua fala caracterizando o momento atual como uma "crise sem precedentes" da civilização capitalista, industrial e ocidental. Essa crise, conforme o docente, abrange aspectos políticos, sociais, morais, estéticos, e é, sobretudo, uma crise ecológica e climática.

Seferian defendeu que o sindicato possui uma historicidade particular, não existindo desde sempre e que nem deveria ter que existir para sempre. “A contenção dessa crise de civilização, ela é vertebrante nessas nossas discussões, tendo em conta que existe uma historicidade particular dessa ferramenta que construímos que é o sindicato. O sindicato não existe desde sempre, e não existirá para sempre. Pode parecer quase sacrílego falar que o sindicato não existirá para sempre”, pontuou. Seferian avançou, explicando que espera que os sindicatos deixem de existir “pelas nossas próprias forças”, ao atingirmos um outro modelo de sociabilidade e não pelas forças do capital e do elitismo, que são as ameaças que estão postas na realidade atual. “O sindicato é uma das tantas ferramentas que a nossa classe construiu na modernidade capitalista para concorrer aos seus interesses”, acrescentou.
Ele ressaltou ainda ser importante respeitar a organização partidária no âmbito do ANDES-SN, e que a filiação de docentes não deve ser vista como algo pecaminoso. “O partido político é a forma por excelência que a classe trabalhadora construiu, no seio da ordem social capitalista, para poder ter uma apreensão de totalidade da realidade social, com uma intervenção que a potencialize para além dos limites postos nos trabalhos concretos e imediatos que nós impulsionamos”, reforçou.

O docente refletiu ainda sobre as relações de mercado que se espelham na categoria, citando colegas que utilizam a estrutura da universidade pública para pesquisa enquanto recebem bolsas de empresas, ou que rejeitam a dedicação exclusiva para poder atuar no mercado de trabalho do setor privado. Ele enfatizou a necessidade de reconhecer o ANDES-SN como uma ferramenta de classe, autônoma e independente, para enfrentar os desafios colocados.
“Companheiros e companheiras, nós temos nossos marcos de identidade e nossas diferenças. É fundamental, todavia, a sobriedade franca, camarada, solidária, democrática, que sempre animou esse sindicato, mas que, infelizmente, nos marcos de desidratação pós-crise contemporânea que vivemos, é preciso reavivá-los. Que nós possamos fazer com que o ANDES-SN siga robusto, firme, contundente, combativo e classista, por quanto for necessário”, encerrou Gustavo.

Letícia Nascimento iniciou sua fala refletindo sobre qual a abrangência da classe trabalhadora, salientando que é impossível pensar a questão de classe sem considerar as opressões, como machismo, racismo, capacitismo e lgbti+fobia. “Quando a gente fala em classe trabalhadora, quais são os parâmetros que nós estamos utilizando para definir a classe trabalhadora? Quais são os critérios? Quais são os conceitos? Porque a gente fala classe trabalhadora, mas quem é que cabe nisso que nós estamos chamando de classe trabalhadora? Quem é que se sente representado e representada quando a gente fala em classe trabalhadora? Será que o Uber que trouxe vocês do aeroporto pra cá ele se identifica enquanto classe trabalhadora? Será que eu, enquanto uma travesti negra, consigo me perceber nisso que nós chamamos de classe trabalhadora? E como será a maneira que nós, dentro desse sindicato, mobilizamos o conceito de classe trabalhadora de modo a fazer com que os nossos colegas, nos nossos departamentos, nas nossas instituições de ensino, também possam se perceber enquanto classe trabalhadora?”, questionou.
A docente refletiu ainda que, embora algumas opressões sejam anteriores ao capitalismo - como o racismo e o machismo -, elas se intensificam e reforçam esse sistema. Por isso, a luta de classes não pode ser pensada sem os atravessamentos dessas diversas forças de opressão.

A crise sindical, segundo Letícia, está associada também à individualização – inclusive do trabalho docente – que distancia as trabalhadoras e os trabalhadores e dificulta a ação coletiva. Essa situação é agravada pela ofensiva ideológica que tenta colocar o sindicato num lugar negativo, o que é reforçado por mecanismos de disputa hegemônica, como os veículos tradicionais de imprensa. Ela destacou a fragmentação da classe trabalhadora através da precarização e terceirização, notando que nas instituições de ensino, apenas a atividade docente ainda não está quase totalmente terceirizada.
A 2ª vice-presidenta do ANDES-SN também criticou a dificuldade de setores da esquerda em compreender pautas que atravessam as questões de classe, citando como exemplo o debate sobre a Palestina e questões raciais. “Nós temos uma população brasileira em que mais de 50% da população é negra. Então, não dá para a gente dizer que não vai discutir isso dentro do nosso sindicato, se é uma questão que marca a nossa sociedade”, reforçou.

Letícia pontuou ainda ser fundamental a disputa dos espaços públicos presencial e virtual, retomar o trabalho de base nos locais de trabalho, ter uma comunicação sindical ágil e acessível e seguir fortalecendo a solidariedade de classe e internacionalista. Além disso, apontou a necessidade de ter como referência a organização das mulheres negras. Ela ressaltou que a capacidade de colocar 300 mil pessoas nas ruas, como visto na II Marcha das Mulheres Negras, é um feito notável e serve como referência para organização das lutas.
Ao final da primeira mesa do Seminário, foi lançada a campanha de sindicalização “O ANDES-SN é mais forte com você”.

Federação x Sindicato Nacional
A segunda mesa do dia teve como tema “Federação x Sindicato Nacional: um debate sobre concepção sindical”, com as abordagens de Raquel Dias, docente da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e Diego Marques, 2º tesoureiro do ANDES-SN. A discussão buscou analisar não apenas a disputa externa que tensiona a concepção sindical do ANDES-SN, mas também situar a entidade no panorama histórico e estrutural do movimento sindical brasileiro.
Raquel Dias concentrou-se na história do ANDES-SN, desde sua origem em 1981 como associação (a ANDES) até sua transformação em Sindicato Nacional, em 1988. Ela detalhou que, na fundação, estava presente a disputa por uma concepção: ser uma entidade científica/acadêmica ou uma entidade sindical, e adotar uma estrutura federativa ou de uma associação nacional. A concepção vitoriosa se vinculou ao chamado novo sindicalismo, buscando romper com o sindicalismo oficial e com o peleguismo.

A docente pontuou que o movimento secessionista, que fundou a Proifes Federação após perder eleições no Sindicato, retoma elementos de concepção de sindicato atrelado ao estado que estavam presentes na origem do ANDES-SN e que foram disputados internamente. “Esses elementos são importantes de serem trazidos, porque fazem parte da história do ANDES-SN, e que hoje a gente defende, estão lá na origem com nossos princípios, e que a gente defende como parte da história dos 44 anos do ANDES-SN, como parte da luta de um sindicato que se organiza pela base, que é autônomo e independente, autofinanciado e que tem, na presencialidade da luta da categoria, a presencialidade não é o dogma, mas quer dizer que nós nos organizamos no chão do local de trabalho. Isso é a presencialidade. É essa concepção que nós construímos ao longo dos 44 anos de história do nosso sindicato que nós construímos e defendemos. Então, ela não saiu das nossas cabeças, ela saiu da própria história do ANDES Sindicato Nacional”, afirmou.
Diego Marques contextualizou o arcabouço legal do sindicalismo brasileiro, organizado em torno de três princípios: a unicidade sindical, a territorialidade (privilegiando a menor base possível) e a segmentação (privilegiando a maior especificidade do grupo profissional). Ele destacou que a estrutura legal reconhece quatro tipos de entidades, sendo os sindicatos as entidades de primeiro grau, caracterizadas por terem processos decisórios diretos com a base.

Apesar de o Brasil enfrentar um quadro de queda na taxa de sindicalização média nos últimos dez anos, que despencou de quase 16% para 8,4% em 2023, o ANDES-SN segue sendo uma das mais relevantes entidades do movimento sindical brasileiro. “O sindicato é a maior entidade sindical de primeiro grau do Brasil, representando mais de 250 mil pessoas (entre ativos e aposentados), com uma taxa de sindicalização superior a 1/4 do total da categoria”, apontou.
Conforme Marques, a capacidade de capilaridade nacional do ANDES-SN, que permite intervir significativamente na luta de classes e na defesa da educação, é um "patrimônio a ser defendido e aprimorado".
Avaliação
“Na sequência de um importante debate sobre a situação da organização da classe trabalhadora no Brasil e no mundo, no atual contexto, nós pudemos discutir o modelo do Sindicato Nacional a que o ANDES-SN historicamente se vinculou e que construiu ao longo de mais de quatro décadas. Esse foi um debate muito importante em que nós pudemos analisar indicadores sobre a estrutura organizativa do movimento sindical brasileiro, contrastar o modelo do nosso Sindicato Nacional com outras formas organizativas, mais notadamente aquela das federações sindicais”, avaliou Diego Marques.

Segundo o diretor do Sindicato Nacional, esse debate resultou um importante acúmulo feito pelas diferentes falas da categoria, presente ao evento, em que se reafirmou a importância e a centralidade dos mecanismos de solidariedade financeira, da unidade política, de todos aqueles elementos organizativos e administrativos que caracterizam a opção histórica pelo Sindicato Nacional e que constituem a robustez da entidade, a sua capacidade de ter forte intervenção e presença nas lutas do conjunto da classe trabalhadora no nosso país.
“Foi um primeiro dia de seminário, portanto, muito positivo, que preparou subsídios políticos para que nós possamos discutir, em sua minúcia, um conjunto de questões organizativas, administrativas, financeiras, nos próximos dias, diante de um panorama sobre o papel do ANDES-SN no conjunto do movimento sindical brasileiro”, finalizou.
Fotos: Eline Luz / Imprensa ANDES-SN
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