Para entender o histórico do processo de declínio de sindicalizações no Brasil, a recente estabilização e leve ascenso, em 2024, no número de trabalhadoras e trabalhadores sindicalizados e os dados sobre a relação da classe trabalhadora com sindicatos, trazido por recente pesquisa da Vox Populi, a imprensa do ANDES-SN conversou com Patrícia Vieira Trópia, pesquisadora e docente do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).
A entrevista foi utilizada em matéria do InformANDES de janeiro de 2026 sobre o tema, e pode ser conferida na íntegra abaixo.
InformANDES: Apesar de 68% dos trabalhadores brasileiros considerarem os sindicatos importantes ou muito importantes para a defesa de direitos, conforme apurado pela pesquisa Vox Populi encomendada pela CUT, a taxa de sindicalização geral no país, segundo dados da PNAD Contínua/IBGE, tem apresentado uma queda acentuada, passando de aproximadamente 15,7% em 2015 para cerca de 9% em 2024. Na sua análise, quais fatores estruturais e conjunturais têm sido os mais determinantes para essa redução e como o movimento sindical pode reverter essa tendência?
Patrícia Vieira Trópia: A queda na densidade sindical, é importante registrar, é um fenômeno que ocorre nos países capitalistas centrais e em boa parte da América Latina, desde pelo menos os anos de 1980. A queda na sindicalização e a redução do número de greves são, dentre outros, dois indicadores do que se convencionou chamar de “crise do sindicalismo”, crise que tem, por sua vez, motivado reações e novas experiências sindicais mundo afora: retorno às bases, sindicalização de setores precários, revitalização sindical, novo internacionalismo, sindicalismo de movimento social. Setores do movimento sindical nos EUA, França, Inglaterra, Alemanha, Suécia, para citar os casos em geral mais estudados, diante do cenário de crise, buscaram se “reinventar”, expressão que também no Brasil é cada vez comum entre dirigentes das centrais sindicais e de entidades de base.
No Brasil, a rigor, o movimento sindical vem perdendo filiados desde o início dos anos 2000, mesmo com crescimento econômico verificado no período 2003 e 2014, quando mais de 18 milhões de trabalhadores ingressaram no mercado de trabalho. Mas é inegável que, a partir de 2012, a queda na sindicalização assume um novo patamar.
Em números absolutos, de um total 14,4 milhões (16.1%), em 2012, o número de ocupados associados a sindicatos passou para 10,4 milhões em 2019 (11%), caiu para 8,4 milhões em 2023, estancando a queda em 2024, quando chega a 8,9 milhões (8.9%).
Se tomarmos apenas os assalariados formais, em 2015 o país contava com cerca de 10,4 milhões de trabalhadores sindicalizados (22%), em 2022 esse número estava na casa dos 6,2 milhões (13,2%).
É preciso destacar que a queda na taxa de sindicalização foi maior, segundo nossas pesquisas (Colombi et al, 2022), nos setores estruturados historicamente no país, justamente naquelas categorias com tradição de organização, como metalúrgicos, químicos e bancários. Os setores mais precários e pior remunerados (por exemplo comércio e construção civil) produziram mais postos de trabalho mas também apresentaram queda na sindicalização entre 2015 e 2022 – o que mostra que os sindicatos não tem conseguido atrair trabalhadores e trabalhadoras desses setores.
As crises econômica e política colocaram os sindicatos diante de um cenário desafiador, pois justamente nos setores precários (terceirizados sobretudo) a sindicalização é baixa e a ação sindical é frágil.
As dificuldades inerentes à organização de trabalhadores mais expostos a altas taxas de rotatividade, à informalidade e a vínculos precários, como é o caso da terceirização, são reforçadas pela legislação sindical brasileira, que impõe uma forma de organização baseada na noção de categoria profissional. Os sindicatos no Brasil são organizados segundo o princípio da unicidade, um único sindicato oficalmente representa uma categoria profissional, o que, por exemplo, impede que os terceirizados sejam legalmente representados pelo mesmo sindicato que representa os trabalhadores diretamente contratados pela empresa para a qual prestam serviço, o que estimula a fragmentação. O Brasil tem mais de 11 mil sindicatos de trabalhadores. A forma de organização sindical brasileira está restrita à representação de trabalhadores formais.
Estou chamando atenção para o fato de o sindicalismo não organizar oficialmente uma parte da classe trabalhadora brasileira que cresce largamente. O sindicalismo vive este dilema: mesmo entidades historicamente organizadas, ameaçadas pela terceirização, deixam de fazer a luta política contra as barreiras oficiais e legais – a estrutura sindical - que as impede de representar os terceirizados, os precários, os informais.
É evidente que o contexto é adverso: a Reforma Trabalhista de 2017 significou um ataque brutal aos sindicatos, às instituições protetivas do trabalho, com efeitos muito deletérios sobre as negociações coletivas, afetando a capacidade de financiamento das entidades. O sindicalismo ficou em uma posição defensiva diante do bombardeio da grande imprensa, de formadores de opinião, políticos vinculados a partidos de centro e centro direita, influencers, etc., que buscam difundir o ideal de uma sociedade sem direitos em que cada trabalhador (colaborador) deve se virar sozinho.
InformANDES: A pesquisa Vox Populi encomendada pela CUT mostra que 52,4% dos entrevistados afirmam não conhecer as ações concretas das entidades que os representam, e apontam a necessidade de maior presença no local de trabalho (49,4%) e melhor comunicação (37,5%) como prioridades para os sindicatos. Como o movimento sindical pode aprimorar sua comunicação e presença para que a alta percepção de importância se converta em uma maior filiação e engajamento da base?
PVT: Este dado é muito interessante. Certamente, o fim do imposto sindical impactou as finanças dos sindicatos, mas o financiamento sindical obrigatório levava à acomodação por parte das direções sindicais. Ademais, muitos sindicatos optavam por se dividir, criando novas entidades, fragmentando a base, ao contrário de se unirem como representantes do conjunto da classe trabalhadora.
É ponto pacífico que o financiamento sindical é necessário. Mas as entidades sindicais devem depender dos filiados. Então, a questão das finanças sindicais deve ser enfrentada com trabalho de base, formação política, atuação no local de trabalho, campanhas de sindicalização, ampla comunicação que faça a disputa ideológica, bem como com atividades e ações que mostrem para os trabalhadores que, sem a luta coletiva, o enfrentamento das adversidades no capitalismo fica mais difícil.
O efeito político desta fragmentação (hoje há, no país, mais de 11 mil sindicatos) é um sindicalismo que acumula pouca força, a despeito do ativismo de segmentos historicamente mais estruturados e reivindicativos e do número de greves no Brasil, que mesmo no período recente e de maior dificuldade para o sindicalismo brasileiro, manteve-se em patamares relativamente elevados.
InformANDES: Ainda de acordo com a pesquisa, visto que quase metade dos autônomos e empreendedores (49,6%) gostaria de ter um sindicato, mas a legislação limita a organização a categorias formais, que estratégias o movimento sindical poderia adotar para organizar e representar essa parcela significativa da classe trabalhadora, que chega a 38% do total?
PVT: Você disse tudo. A legislação trabalhista limita a organização das categorais predominantemente informais, dos terceirizados, do autônomo sem carteira. O sindicalismo não representa os informais. Mas representa os terceirizados e inclusive autônomos. Todavia, nesses setores, o sindicato raramente é atuante. No geral, o sindicalismo brasileiro não faz trabalho de base consistente, tem pouco enraizamento no local de trabalho. Então, para o sindicalismo se reinventar é preciso voltar para as bases, discutir, politizar, fazer formação, atrair os mais jovens e não temer suas demandas e aspirações.
O movimento Vida além do trabalho (VAT) é um exemplo de demanda que tem origem, e se espraia, entre trabalhadores jovens, principalmente do comércio, que querem direitos trabalhistas, que querem poder trabalhar, estudar, ter lazer e uma vida melhor, menos brutal e adoecedora. A bandeira da redução da jornada de trabalho é historicamente do movimento sindical. Os sindicatos no país pautam e lutam pela reducação da jornada. A luta pelo fim da escala 6 por 1 surgiu com muita força fora dos sindicatos. As centrais sindicais demoraram a aderir ao movimento. Isso revela que, embora queira se reinventar, o sindicalismo no Brasil tem muita dificuldade de se aproximar dos setores mais precários.
InformANDES: Historicamente, o setor público se mantém como o mais sindicalizado do Brasil, embora tenha visto sua taxa cair de cerca de 28% em 2015 para próximo de 19% em 2024. Quais razões específicas explicam essa capacidade do setor público em manter taxas mais altas em comparação com o setor privado, e quais fatores têm contribuído para a queda observada na última década?
PVT: Primeiramente, o sindicalismo no setor público só se tornou expressivo, ativo e grevista a partir da redemocratização política. Até então, pesava sobre o setor público e outras categorias de classe média a concepção segundo a qual o sindicalismo era um movimento de trabalhadores manuais.
A mudança no perfil dos servidores, a perda de direitos, ou a conquista de direitos que não são garantidos, desde os anos 1990, têm levado inúmeras categorias do setor público – federal, estadual e municipal - a lutar contra as mais diversas formas de gestão pública, que miram no enxugamento, na racionalidade administrativa e fiscal, e que aderem à visão dos serviços estatais como gasto e não como investimento e direito dos trabalhadores que produzem riquezas e pagam impostos.
Os servidores públicos têm estabilidade, conquistaram direitos e lutam para não perdê-los. Outro aspecto importante é que muitas categorias, entre as quais educação e saúde, politizam suas lutas porque negociam com governos.
InformANDES: Você avalia que a Reforma Administrativa pode ser uma ferramenta para fragilizar a organização sindical no serviço público?
PVT: Sim. A Reforma Administrativa, sob a justificativa de combater privilégios e modernizar as relações de trabalho no setor público, visa reduzir direitos conquistados. Amplia a possibilidade de contratação temporária e da terceirização – o que, como já assinalei, fragmenta as categorias e tende a fragilizar a organização sindical onde ela tem sido mais forte e resistente.
InformANDES: O apoio ao direito de greve é alto, com mais de 70% dos trabalhadores defendendo essa ferramenta. Qual o papel da greve, como instrumento de pressão, na garantia e ampliação dos direitos trabalhistas no contexto brasileiro atual, especialmente no setor público onde o direito é frequentemente alvo de debate e judicialização?
PVT: A pesquisa CUT/ Vox Populi revela dados muito interessantes. Estão equivocados os quem acreditam que está tudo dominado e que não há perspectivas de resistência. Valores neoliberais ou liberais podem ter impacto nas classes trabalhadoras, mas a adesão não é ativa. Os trabalhadores podem até ressignificar aspectos da ideologia dominante, mas continuam sendo trabalhadores. A greve é um poderoso instrumento de pressão e de luta. Historicamente, não há conquistas sociais, nem ampliação de direitos, sem ação coletiva organizada, sem pressão.
Pesquisadores de vários países, incluindo o Brasil, produziram um relatório sobre greves deflagradas em 2023. O International Strike Report 2023 mostra que, nos países centrais e nos países periféricos, a greve continua sendo um instrumento poderoso de luta e resistência.
No rastro da crise de 2008, uma nova onda de greves tem surgido em vários países. A maioria das greves é deflagrada por sindicatos, evidenciando a importância da ação coletiva e dos instrumentos de luta contra os efeitos da crise econômica, da financeirização, do neoliberalismo, efeitos que sempre caem nas costas dos trabalhadores e das trabalhadoras, especialmente migrantes, negros e pobres.
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