Docentes da Uerj aprovam greve e ampliam mobilização por recomposição salarial

Publicado em 20 de Março de 2026 às 15h51. Atualizado em 20 de Março de 2026 às 17h35
Fotos: Sérgio Franklin/Asduerj SSind

As e os docentes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) aprovaram, na tarde de quinta-feira (19), a deflagração de greve da categoria. A decisão foi tomada em uma assembleia histórica, que reuniu centenas de professores no auditório da universidade. A greve, a primeira em uma década, tem início marcado para a próxima quarta-feira, 25 de março.
 
A greve ocorre após o esgotamento das tentativas de negociação com o governo de Cláudio Castro (PL). Entre as principais reivindicações estão o pagamento das perdas salariais, a recomposição inflacionária recente, o retorno dos triênios, a correção das distorções nos benefícios e ampliação do orçamento da Uerj.

“A atual direção vem oficiando o governo do Estado desde outubro, solicitando a abertura de uma mesa de negociação com duas pautas centrais: a recomposição salarial, incluindo as duas parcelas não pagas da Lei 9.436/21 e os IPCA’s de 2023, 2024 e 2025, e a revogação da Lei 194/21, com a retomada dos triênios para todas e todos os docentes”, afirmou Gregory Costa, presidente da Associação dos Docentes da Uerj (Asduerj-Seção Sindical do ANDES-SN). 

Outras reivindicações incluem a incidência dos triênios sobre a Dedicação Exclusiva (DE) no salário total e a vinculação orçamentária da universidade em 6% da Receita Corrente Líquida do estado, conforme previsto na Constituição estadual, o que poderia, segundo Costa, triplicar o orçamento da instituição.

Histórico de perdas
A situação atual é resultado de um processo de desgaste que se intensificou nos últimos anos. Desde 2017, com a adesão do estado do Rio de Janeiro ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF), docentes da Uerj acumulam perdas salariais acumuladas após mais de 16 anos sem reajustes significativos e com poucas recomposições.

Em 2018, a Lei 8.267 assegurou o direito ao regime de DE às servidoras e aos servidores da instituição, incorporando-o ao vencimento básico. A medida é uma reivindicação histórica da categoria, já que, anteriormente, a DE era paga apenas como adicional.

Em 2021, novas medidas agravaram a situação. A Lei 194 extinguiu os triênios para novas e novos servidores, e a Lei 9436 previu recomposição salarial de 26%, pagas em três parcelas, mas apenas metade foi paga. “Recebemos 50% da recomposição em 2022. Os 25% previstos para 2023 e os outros 25% de 2024 não foram pagos. Na prática, houve um calote de metade da recomposição: recebemos 13,05% e deixamos de receber outros 13,05%. Desde então, a Asduerj tem realizado atos, audiências públicas e solicitado a abertura de uma mesa de negociação com o governo, mas a categoria vem sendo ignorada há cinco anos”, explicou Gregory Costa.


Silêncio do governo
A Asduerj SSind. denuncia que o governo estadual tem ignorado sistematicamente as tentativas de diálogo, por meio de ofícios enviados em outubro de 2025. Em 29 de janeiro de 2026, o sindicato reiterou o pedido de reunião, mas a gestão alegou que as agendas só seriam marcadas após o retorno do governador de uma viagem, em fevereiro. Desde então, não houve resposta.

No dia 18 de março, docentes da Uerj e da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), junto com técnicas e técnicos, paralisaram as atividades e realizaram um ato unificado com as demais categorias do serviço público. A mobilização seguiu até o Palácio Guanabara, com a expectativa de serem recebidos pelo governo, e antecedeu a assembleia que aprovou a greve. [LINK]

Cenário político
O cenário ganha contornos de urgência diante do calendário político. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) marcou para 24 de março a retomada do julgamento que pode cassar o mandato de Cláudio Castro. Caso o processo avance, há a possibilidade de renúncia do governador na próxima segunda-feira (23).

O Escândalo do Ceperj/Uerj, conhecido como “Folha Secreta”, envolveu a destinação de cerca de R$ 519 milhões para aproximadamente 27 mil contratações de cabos eleitorais na campanha à reeleição de Cláudio Castro em 2022. O caso é apontado como abuso de poder político e econômico, além de indícios de fraude, improbidade administrativa e violação dos princípios da administração pública. Além disso, o presidente da Asduerj SSind. acusa Cláudio Castro de destinar quase R$ 1 bilhão do Rioprevidência ao Banco Master e avalia que sua postura nas negociações reflete um projeto de desmonte do serviço público estadual.

Para Gregory Castro, há um "projeto de asfixia" da universidade. Ele apontou ainda que a nomeação do deputado Anderson Moraes (PL), autor de um projeto de lei para extinguir a Uerj, como Secretário de Ciência e Tecnologia do Estado, pasta à qual a universidade está vinculada, é a prova mais evidente dessa política.


Futuro da greve
Segundo Gregory Costa, a expectativa da categoria é fortalecer a organização interna e ampliar o diálogo com a sociedade, destacando o papel estratégico da Uerj no desenvolvimento econômico e social do estado.

“A Uerj contribui diretamente para o desenvolvimento econômico e social do Rio de Janeiro, gerando empregos e renda para a classe trabalhadora. Além disso, realiza importantes ações sociais, como projetos de extensão e pré-vestibulares populares e comunitários. Temos ainda o atendimento público, gratuito e de qualidade do Hospital Universitário Pedro Ernesto. Por isso, queremos aprofundar o diálogo com a sociedade, pois só com mobilização será possível pressionar o governo. Reerguer a Uerj é beneficiar não apenas a categoria docente, mas toda a população fluminense", concluiu o presidente da seção sindical do ANDES-SN.

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